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Governador eleito fecha questão com a bancada do PL e aposta em base de 40 parlamentares. Do outro lado, Ceciliano recompõe aliança com Quaquá, e Tutuca entra com sua bancada. Com 70 cadeiras em jogo, cada voto vira ativo de negociação
O governador eleito do Rio de Janeiro, Douglas Ruas, reuniu na manhã desta quarta-feira a bancada do PL na sede do partido, no Centro, e bateu o martelo: o candidato do governo à presidência da Assembleia Legislativa é o deputado Anderson Moraes. A escolha encerra — ao menos formalmente — a especulação sobre nomes alternativos do grupo e sinaliza que Ruas quer repetir na sucessão da Casa o movimento que o elegeu governador.
A confirmação, porém, chega em um tabuleiro que se moveu desde a semana passada. Segundo apuração de O Globo e da CBN, a derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial teve reflexo direto na Alerj: Anderson Moraes, deputado ligado à família Bolsonaro, perdeu força na disputa na qual despontava como favorito. A decisão de Ruas de reafirmá-lo opera no sentido contrário a essa leitura — e é, também, um gesto de lealdade interna.
A aritmética da base governista
O cálculo apresentado pela cúpula do PL é de soma escalonada. A bancada do partido é a maior da próxima legislatura, com 21 deputados, conforme a composição divulgada pela própria Alerj para o período 2027–2030. A ela se somariam a federação União Brasil e o PP, que juntos detêm 10 cadeiras, formando um bloco inicial de 31 parlamentares.
A esse núcleo, ainda segundo o partido, se juntariam cerca de nove deputados independentes — chegando a 40 votos, número confortável em uma Casa de 70 cadeiras. É essa maioria que a base de Ruas apresenta como suficiente para eleger o presidente e iniciar o governo com sustentação parlamentar consistente.
| Bloco | Deputados |
|---|---|
| PL (bancada própria) | 21 |
| Federação União Brasil + PP | 10 |
| Independentes (estimativa do partido) | 9 |
| Total projetado | 40 |
| Necessários para maioria (metade + 1) | 36 |
O xadrez da oposição: três candidaturas e um problema de soma
Do outro lado, o quadro é fragmentado — e essa é a variável que impede um desfecho antecipado. O ex-presidente da Alerj André Ceciliano (PT) articula o retorno ao comando, e na terça-feira recebeu o apoio mais importante possível: em encontro comemorado como reaproximação, o prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, chamou Ceciliano de “nosso candidato à presidência da Alerj”.
A articulação parte de uma base potencial de 28 deputados: dez da federação PT-PCdoB, cinco do PSOL, dois do PDT, dois do PSB e nove do PSD.
O detalhe é que Quaquá projeta já contabilizar mais de 30 votos para Ceciliano. E aqui aparece a contradição estrutural da disputa: como a Casa tem 70 cadeiras, e três candidaturas afirmam, ao mesmo tempo, ter base superior a 25 apoiamentos, os números não fecham matematicamente. Uma das três contas embutirá votos que a outra também reivindica.
O terceiro nome é Gustavo Tutuca (PP). Ex-secretário estadual de Turismo, ele entrou na disputa e se apresenta explicitamente como — o único candidato, na sua avaliação, capaz de derrotar o petista. Sua força não vem do tamanho da bancada, mas da posição do PP dentro da federação União Progressista, que reúne 10 cadeiras e é peça central do bloco governista. Apoiadores de Tutuca afirmam ter mais de 25 apoios.
O paradoxo do PP: mesma federação, lados opostos
Aqui está o nó político mais delicado. O PP integra o bloco que sustenta o nome do governo, mas lança candidatura própria contra o articulador do campo adversário — e, ao mesmo tempo, é cortejado por Ceciliano em busca de uma maioria alternativa. Isso significa que a federação União Progressista pode estar dos dois lados da mesa ao mesmo tempo, dependendo de quem controla seus votos.
Na prática, isso reduz a previsibilidade da conta oficial. Os 31 votos do bloco inicial só se convertem em 31 votos reais se o PP estiver integralmente com Moraes — e a candidatura de Tutuca é, por definição, a expressão de que parte desse bloco pode ter um projeto próprio.
A reconstrução de uma rivalidade
A aliança entre Ceciliano e Quaquá tem peso simbólico extra: os dois foram adversários internos na disputa pelo comando do PT fluminense. A reaproximação, formalizada na terça-feira, reorganiza o campo da esquerda no Rio na direção de um projeto de poder que vai além da Alerj — e que trava contato com outros partidos do bloco governista.
A eleição da mesa diretora não é tema local. Quem preside a Assembleia controla a pauta, as comissões, o orçamento impositivo e o calendário de votações. Em um estado com histórico recente de intervenção e cassações, o comando da Casa é ativo de primeira grandeza.
Uma Casa com 40% de renovação
A 14ª legislatura (2027–2030) terá representantes de 17 partidos e contará com 28 deputados novos, num total de 40% de renovação. A maior bancada é a do PL, com 21 cadeiras; em seguida vêm a federação PT-PCdoB, com 10, e o PSD, com 9. A deputada mais votada foi Índia Armelau (PL), com 248.504 votos.
Entre os retornos, dois nomes pesam na disputa: André Ceciliano (PT) e Márcio Canella (União Brasil). Ceciliano já presidiu a Casa e conhece o regimento na intimidade — trunfo relevante em eleições de mesa, onde o controle do processo costuma valer tanto quanto o número de votos.
Nas votações nominais que importam, os deputados mais bem posicionados trazem a seguinte base: Dani Balbi (PCdoB), 169.474 votos; Guilherme Delaroli (PL), 166.374, atual vice-presidente e que segue no páreo como alternativa do PL; Rosenverg Reis (MDB), 139.866; Elika Takimoto (PT), 135.271; e Anderson Moraes (PL), 129.325.
O calendário aperta
Há dois prazos que condicionam tudo. O primeiro é a posse de Douglas Ruas como governador, em 6 de janeiro. O segundo é a eleição da nova mesa diretora, que precisa ocorrer antes — e para a qual Ruas ainda está formalmente no comando da Assembleia.
Ruas, que em abril de 2026 foi eleito presidente da Alerj com 45 votos e não assumiu o governo interinamente por ordem do TSE, informou que convocará reunião com os deputados para discutir a sucessão. Até a manhã desta quarta, a data não estava marcada. A convocação, quando sair, funcionará como sinal: antecipar a votação favorece quem já tem base consolidada; postergar beneficia quem ainda negocia.
O que a conta revela sobre o jogo
O ponto central da disputa não é numérico, é metodológico. A base do governo trabalha com projeção declarada — soma de bancada própria, aliados federados e independentes. A oposição trabalha com contagem reivindicada. Nenhum dos lados apresenta lista assinada, e a Casa tem 70 votos disponíveis, o que torna matematicamente impossível que duas candidaturas tenham mais de 30 apoios simultâneos e verificáveis.
A vereação real serão as próximas 72 horas. Quem conseguir publicar primeira uma lista de apoiadores superior a 36 votos — a maioria simples necessária — muda o custo político da entrada dos demais e induz o efeito manada típico de disputas de mesa. Enquanto isso, cada voto é tratado como ativo de negociação.
Quem é quem na disputa
| Candidato | Partido | Base declarada | Situação |
|---|---|---|---|
| Anderson Moraes | PL | Bloco de 40 (com aliados e independentes) | Nome oficial do governo de Douglas Ruas |
| André Ceciliano | PT | +30 votos (reivindicado por Quaquá) | Ex-presidente da Alerj; apoio do prefeito de Maricá |
| Gustavo Tutuca | PP | +25 votos | Ex-secretário de Turismo; apresenta-se como anti-Ceciliano |
| Guilherme Delaroli | PL | alternativa interna | Atual vice-presidente da Casa |
Canella: 197 mil votos que podem desaparecer da conta
O caso mais explosivo é o de Márcio Canella (União Brasil), o segundo deputado estadual mais votado do estado, com 197.178 votos. Ele foi preso em 15 de outubro pela Polícia Federal, na 8ª fase da Operação Unha e Carne. Sua candidatura foi aprovada pelo TRE-RJ, mas o Ministério Público Eleitoral recorreu ao TSE para tentar reverter a decisão.
Se o registro for negado, os 197 mil votos são anulados e o quociente eleitoral que distribuiu as 70 cadeiras precisa ser recalculado do zero. Isso não afeta apenas o União Brasil: muda a partilha entre todos os partidos e pode derrubar deputados que hoje se consideram eleitos — inclusive nomes que a base de Ruas conta como certos.
Os votos sob júdice: sete nomes, mais de 260 mil votos
A Alerj divulgou que o TSE ainda avalia recursos de sete candidatos que concorreram sob júdice. A soma do que está em jogo é grande: João Drumond (PRD), 55.759 votos, teve o registro indeferido pelo TRE em 11 de setembro por 5 votos; Diego Alba (PSDB), 48.547; Renato Machado (PT), 48.300; Val Ceasa (PRD), 47.080; Paulo Melo (União), 33.546; Vaguinho Neguinho (PRD), 27.391; e Luiz Martins (PSDB), 24.651.
| Candidato | Partido | Votos | Situação |
|---|---|---|---|
| João Drumond | PRD | 55.759 | Indeferido pelo TRE; recurso no TSE |
| Diego Alba | PSDB | 48.547 | Indeferido pelo TRE; recurso no TSE |
| Renato Machado | PT | 48.300 | Sub júdice; recurso no TSE |
| Val Ceasa | PRD | 47.080 | Indeferido; recorre |
| Paulo Melo | União | 33.546 | Sub júdice; recurso no TSE |
| Vaguinho Neguinho | PRD | 27.391 | Registro negado |
| Luiz Martins | PSDB | 24.651 | Aprovado pelo TRE em 21/10 |
Luiz Martins e o efeito dominó da retotalização
Um desses casos já teve desfecho favorável. Em 21 de outubro, o TRE-RJ aprovou por maioria o registro de Luiz Martins (PSDB), permitindo que seus 24.651 votos entrem na totalização oficial. A decisão pode garantir uma cadeira à federação PSDB–Cidadania.
Só que a retotalização não sai imediatamente. Segundo a Corte, ela só será feita após o julgamento dos recursos dos demais candidatos sob júdice — Drumond, com 55,7 mil votos, e Renato Machado, com 48,3 mil. Ou seja: a nova composição da Alerj só será conhecida quando a fila do TSE andar. E ninguém sabe hoje quem entra e quem sai.
O critério é o mesmo em todos os casos: entra quem tem votação individual suficiente dentro do quociente do partido. O deputado estadual eleito com a menor votação individual hoje é DC, com 27.447 votos — o que dá a dimensão exata do risco para quem está no fim da lista.
A peça que pode virar o jogo inteiro: Paes e o segundo turno
Há ainda uma variável que não mexe em uma cadeira, mas em todas. O PSD ajuizou no STF a ADPF 1362, sob relatoria do ministro Cristiano Zanin, para restabelecer o segundo turno da eleição para governador, que o partido sustentava dever ocorrer em 25 de outubro.
O caminho até aqui é conhecido. Em 8 de outubro, o TSE anulou por 5 votos a 2 os 274.411 votos de Anthony Garotinho, que concorreu com registro indeferido. Com a retotalização determinada e executada pelo TRE, Ruas subiu de 49,27% para 50,88% dos votos válidos; Paes passou de 42,76% para 44,16%. Ruas foi proclamado governador em 15 de outubro. Antes, Zanin já havia negado pedido da coligação de Paes, por questões processuais, e Paes chegou a desistir da candidatura.
Agora, o PSD insiste no STF. Não há, até o momento, decisão que determine a realização de um novo turno — mas a ação segue pendente de julgamento de mérito. E o impacto hipotético é total: um segundo turno reabriria a disputa pelo governo e, por consequência, toda a negociação pela mesa da Alerj, que hoje gira em torno da força política de um governador já proclamado.
Há dois relógios correndo em paralelo, e eles não estão sincronizados. O primeiro é o político: Ruas toma posse como governador em 6 de janeiro e precisa de uma mesa diretora aliada antes disso. O segundo é o judicial: os recursos no TSE não têm data para serem julgados, e a retotalização da Alerj está condicionada a eles.
Se a Alerj votar a mesa antes das decisões judiciais, corre o risco de eleger um presidente em uma composição que não existirá em fevereiro. Se esperar, entrega a negociação ao tempo do TSE — e cada semana extra é uma semana a mais de articulação para Ceciliano, que conhece o regimento e já presidiu a Casa.
A única coisa que a confirmação de Anderson Moraes resolveu foi a dúvida interna do PL. A dúvida externa — quantos deputados, de fato, estarão sentados no plenário em 2027 — segue aberta.
As quatro frentes judiciais
| Frente | O que está em jogo | Status |
|---|---|---|
| Recurso contra Canella no TSE | 197.178 votos do União Brasil | Pendente; prisão na Operação Unha e Carne |
| Sete candidatos sob júdice | mais de 260 mil votos; 7 registros | Pendente no TSE |
| Luiz Martins (PSDB) | 24.651 votos e 1 cadeira para PSDB–Cidadania | Aprovado no TRE em 21/10; aguarda retotalização |
| ADPF 1362 (PSD) no STF | Segundo turno no governo do RJ | Pendente; relator Min. Cristiano Zanin |
Por Ralph Lichotti







